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10/06/2024
Furiosa - uma saga Mad Max
18/05/2024
O desejo das plantas: a domesticação do humano em A Flor Da Felicidade (2019)
Alice esterilizou a espécie para controlar sua propagação. A planta não produz sementes e nem mudas. Só pode ser reproduzida em laboratório. Little Joe divide o ambiente da estufa com outra planta e na relação entre elas começam a surgir os primeiros problemas. O pólen expelido por Little Joe extermina todas as outras plantas de outras espécies da estufa. O dócil cão acompanhante de uma outra cientista do laboratório desenvolve um comportamento agressivo ao ficar preso na estufa e, transformado, precisa ser sacrificado. Alice é alertada sobre a periculosidade de sua criação. Little Joe está infectando hospedeiros para burlar sua incapacidade de propagação. Ela reluta em acreditar. Mas alguns sinais no comportamento de seu filho começam a parecer estranhos após ele conviver com um exemplar de Little Joe que ela lhe deu de presente.
O roteiro escrito a dois pela diretora Jessica Hausner e por Géraldine Bajard aposta em um ritmo lento. A história se desenvolve tal como uma planta. Cresce aos poucos e sem grandes pontos de virada. É como um Alien (1989) de Ridley Scott a substituir o antagonista animal por um vegetal. Mas Little Joe não precisa ser letal para se reproduzir como no filme de Scott. Só precisa ser indispensável aos humanos. A beleza e o aroma de sua flor carmesim são iscas atrativas para sua atuação no cérebro dentro do qual estimula a produção de hormônios indutores de bem-estar e felicidade.
O longa-metragem de Hausner possibilita interpretações variadas. Mas uma delas se sobressai. É sobre o desejo das plantas. Quem pode afirmar definitivamente que as plantas não têm agência? A mimese da Boquila Trifoliolata é só uma questão de adaptação ou é a planta pensando nas possibilidades de benefício com a emulação de características de outras plantas sobre as quais cresce? As cores vibrantes e o aroma e o sabor das frutas são apenas atrativos para os bichos carregarem suas sementes para longe? E se o desejo da laranjeira se realizar na monocultura de laranja? Se a propagação é o desejo da planta, uma centena de hectares nos quais apenas ela reina deve ser o seu paraíso. No entanto, o amplo domínio territorial de uma única espécie nem sempre é benéfico para outras espécies. É exatamente a partir desse desejo que Little Joe age. A laranjeira não precisa buscar por um paraíso monocultural porque tem capacidade de se propagar sem ajuda humana. É o desejo humano de lucro que transforma laranjeiras em monoculturas. Little Joe só pode viver pela mão dos humanos. Sua esterilidade a faz desejar e perseguir seu paraíso, uma monocultura de flores da felicidade. E um mundo povoado de infelizes no qual ela é um remédio eficaz garante sua sobrevivência.
Parece uma boa história de ficção a discutir a inteligência e a racionalidade vegetal para engrossar as discussões propostas em A Revolução das Plantas, do botânico italiano Stefano Mancuso. Mas em sub-camadas expressa um temor sobre esse vivente capaz de perseguir a realização de seus desejos de espécie a escapar do controle humano. É uma alteridade ameaçadora. Uma criação a se insurgir contra o criador como aquelas máquinas destrutivas de O Exterminador do Futuro (1984) e suas sequências. O indomável é o terror do humano. Nossa espécie se estrutura enquanto sujeito a partir do controle de tudo aquilo a lhe parecer selvagem, como os próprios instintos e o mundo natural com todos os seus elementos. Esse controle lhe permite subjugar, explorar, transformar em "recursos naturais" e mercadorias isso que se chama convencionalmente de 'natureza'. Contudo, humanidade e natureza não fazem parte de universos distintos, são uma coisa só. E quando o homem cria a ideia de natureza para destruí-la está destruindo a si mesmo. Little Joe encontra nessa pulsão de morte com seu angustiante mal-estar o caminho certeiro para uma domesticação psicotrópica dos humanos. O instante final do longa-metragem convida-nos a avaliar a capacidade de manipulação desse vegetal de desejos incontroláveis.
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01/04/2024
Matador de Aluguel: o impulso de raiva em um messias crossfítico
Eduardo Barbosa ▪ 01 abr 2024
26/03/2024
O despertar da sexualidade e sua repressão é o tema deste delicado filme ambientado nas pantanosas terras argentinas
Eduardo Barbosa ▪ 26 mar 2024
Blaz Finardi Diz, Renata Calmon
Origem: Argentina, Brasil
19/03/2024
Andrew Haigh utiliza mortos e metáforas em Todos Nós Desconhecidos para falar sobre a solidão gay
Eduardo Barbosa ▪ 19 mar 2024
15/03/2024
O filme de Denis Villeneuve enche os olhos e inunda os ouvidos, mas cansa ao concentrar a maior parte da ação em sua última hora
Eduardo Barbosa ▪ 15 mar 2024
10/03/2024
O espectador é o jurado em Anatomia De Uma Queda de Justine Triet
Poucos dramas de tribunal conseguem ser tão intrigantes como este filme de Justine Triet. O roteiro, assinado por Arthur Harari e pela diretora, nunca entrega respostas fáceis para o espectador elucidar o caso. As perguntas se acumulam. Não sabemos em quem acreditar. Só nos resta seguir as evidências apresentadas pela defesa e pela acusação. É engenhoso e funciona.
Eduardo Barbosa ▪ 10 mar 2024
Uma dezena de perguntas inundam o espectador. Por que Sandra não subiu e pediu que ele abaixasse o volume? Quem é este homem? É um marido violento? Nada disso é respondido de pronto. A moça vai embora. O filho do casal, um menino com problemas de visão, sai para passear com o cachorro. O espectador passeia com ele pelos arredores do chalé. Enquanto a música continua na casa. Ele retorna algum tempo depois. O som ainda está ligado. Samuel aparece pela primeira vez na tela. Está morto sobre a neve que cobre o chão sob a janela do sótão. Ninguém sabe o que aconteceu. Dentro ou fora da tela.
Durante as investigações surgem três hipóteses. A acusação aposta em assassinato cometido pela esposa. Sandra diz que só pode ter sido uma queda acidental. O filho diz ter ouvido uma discussão amigável quando estava lá fora com o cão, mas se atrapalha na reconstrução da cena. Como ouviria uma conversa amigável de longe se o som estava tão alto? O advogado de defesa acredita na cliente, mas prefere construir uma tese sobre suicídio. O drama de tribunal ganha musculosidade a partir desse ponto. Nas evidências apresentadas pela acusação está a forma de Justine Triet contar a história do casal. Segredos da sexualidade da escritora emergem. Brigas domésticas violentas aparecem em gravações do computador de Samuel. Ela parece a responsável pela queda. O promotor de justiça consegue abalar as certezas do filho sobre a inocência da mãe. Tudo leva a crer que ela jogou o homem janela abaixo no dia da entrevista. Mas a tese sobre suicídio ganha novas evidências.
Sandra mente algumas vezes. O advogado tem um caso com ela. O menino não se mostra uma testemunha confiável. A acusação usa até os romances de autoficção escritos pela acusada como prova do crime de assassinato. E quando o filme se encaminha para o final, tudo que queremos saber é o que aconteceu naquele sótão. Mas Triet dá de ombros. Não há retorno para a cena central disparadora do incidente incitante. O ponto central é convidar-nos a refletir sobre como uma mulher que ascendeu profissionalmente ameaça a frágil estrutura que organiza o masculino. Quando os créditos sobem na tela a história continua rodando em nossa mente. O filme monta um corpo de jurados com o espectador. É nisso que reside sua excelência como drama de tribunal, pois uma das características do tribunal do júri é sua composição feita com pessoas comuns e não especialistas em aplicação das leis. A partir das peças de acusação e defesa, quem te convence mais? O promotor ou o advogado de Sandra? Triet não bate o martelo, a sentença quem dá é você.
Anatomia De Uma Queda
Ano: 2023
Duração: 2h 32min.
Direção: Justine Triet
Roteiro: Artur Harari, Justine Triet
Elenco: Sandra Huller, Swann Arlaud, Milo Machado Graner
Origem: França
Vidas Passadas de Celine Song é um delicado conto de amor a encantar com sua trama livre de clichês do gênero
Hae Song toca a vida com a memória de um amor do passado na ponta dos dedos, uma memória viva, memória pura. Já para Nora talvez esse passado ainda não se atualizou com reencontros suficientes no presente para gerar a quantidade certa de camadas de In-Yun para juntá-los. Seria preciso mais vidas passadas gerando memória-hábito para construir um presente para a junção dos dois? Ou o momento certo chegou?
Eduardo Barbosa ▪ 10 mar 2024
Hae chega em Nova York alguns anos depois que Nora já está bem estabilizada. A chegada do rapaz trás uma espécie de afetividade incômoda. Nora mantêm alguma distância apesar de receber Hae com gentileza. Celine Song sabe criar essa sensação com destreza por meio de enquadramentos nos quais os personagens se localizam nos cantos da fotografia. Nora tem sentimentos por ele. Mas o tempo parece hesitar em aproximá-los. Como se as rodas do destino ainda não tivessem girado o suficiente para fechar o terceiro ato do casal.
Ela lhe apresenta a cidade. Leva-o a lugares aos quais nunca esteve com o marido e Arthur se incomoda. Cria vivências exclusivas para um velho amor que está sempre se renovando. Tudo é único com Hae Sung. Os três se reúnem para jantar. Arthur fica a sobrar entre os tantos assuntos tecidos entre Nora e Hae em um idioma que ele conhece pouco. Mas Arthur é um homem afável. Há alguma insegurança nele, mas não há agressividade, não cede a impulsos de ciúme. Mais tarde ele acaba trazendo à baila a própria dúvida sobre os sentimentos da companheira em relação ao visitante. É uma conversa madura. Celine jamais cai nos clichês dos contos de romance comuns. Eles nunca brigam, apenas conversam. Hae Song é tomado por Arthur como uma parte da história da companheira. Aceita a explicação de que ele não é um rival. Essa maturidade dos personagens gera uma das mais sublimes cenas do cinema romântico contemporâneo nas últimas cenas. Há muita beleza nele ao amparar a dor dela.
Arthur, interpretado pelo ótimo John Magaro de First Cow (2019), tem a construção absolutamente certa. E Greta Lee e Yoo Teo tem a química adequada para a composição do casal desencontrado. A dosagem de acanhamento e desinibição aplicada aos dois personagens nunca os fazem soar incoerente. Junta-se a isso a direção competente de Song e o resultado é um belo e original conto de amor.
Vidas Passadas
Ano: 2023
Duração: 1h 46min.
Direção e roteiro: Celine Song
Elenco: Greta Lee, Yoo Teo e John Magaro
Origem: Coreia do Sul, EUA
O Rejeitados é mais um filme natalino repleto de clichês e final açucarado
Os rejeitados é uma daquelas comédias com histórias natalinas que apostam em finais açucarados, a depender do personagem para o qual se olha. Há alguma dose de negatividade aqui e ali. Mas o modo como as coisas terminam impregnam o filme com uma atmosfera natalina previsível.
Eduardo Barbosa ▪ 10 mar 2024
A trama vai se encorpando do fim do segundo ato em diante. Perde um bom tanto dos traços iniciais de comédia adolescente. Mas nunca atinge um ponto completo de maturidade. Há um incontável número de piadas bobas. O espectador que já está acostumado com o tipo de história desenhado logo nas primeiras cenas sabe exatamente para onde o roteiro vai. São poucas surpresas e muita previsibilidade.
Talvez, as melhores coisas do filme sejam as atuações de Paul Giamatti, interpretando o tal professor. E Da' Vine Joy Randolph na pele da chefe de cozinha da escola. Ambos atingem o tom exato dos personagens do começo ao fim. Mas as excelentes atuações não salvam o filme de seus problemas com o roteiro.
Os Rejeitados
Ano: 2023
Duração: 2h 13min.
Direção: Alexander Payne
Roteiro: David Hemingson
Elenco principal: Paul Giamatti, Da'Vine Joy Randolph e Dominic Sessa
Origem: USA
09/03/2024
A dádiva dos mortos em A Sociedade Da Neve de Juan Antonio Bayona
04/03/2024
A Cor Púrpura: o racismo está presente, mas a dominação masculina é o principal antagonista
21/02/2024
Zona De Interesse (2023) incomoda e instiga-nos a pensar sobre a bestialidade humana
A proposta de criar um filme sobre a vida de uma família nazista sob a forma de uma ficção etnográfica pode entusiasmar uma parcela de espectadores acostumados com os debates acadêmicos e filosóficos. Para leitores e estudiosos de Hannah Arendt, por exemplo, não é difícil aplicar ideias como "banalidade do mal" ao filme de Jonathan Glazer. Zona de interesse pode ter muitos significados para as classes intelectuais e dizer bem menos do que pretende para os espectadores comuns.
A maioria dos filmes sobre o Holocausto trazem as vítimas para o centro da narrativa. Já vimos, portanto, dezenas de filmes nos quais o horror do nazismo é retratado do ponto de vista dos perseguidos pelo regime. Na década de 90, por exemplo, Clive Owen protagonizou um desses filmes, Bent (1997), dirigido por Sean Mathias. Seu personagem é um cativo do regime nazista. Ao ser transportado para um campo de concentração ele passa por um casal à beira do caminho fazendo um piquenique. A marcha dos condenados não os comove. Jonathan Glazer parece ter colhido exatamente esta cena para destrinchá-la em Zona de interesse. É apenas esse tipo de personagem que aparece em seu longa-metragem. A trama desenha o retrato de uma família "eleita", os escolhidos do terceiro reich. Histórias sob esta perspectiva não é comum no cinema. Glazer tenta distanciar seus protagonistas do espectador. A câmera os enquadra de longe. Sem plano fechado. Nada de close-ups. Nada de laços de intimidade entre a família nazista e quem os assiste. O importante não são suas expressões faciais, detalhes de suas emoções. É o ambiente. Então, há uma boa quantidade de registros abertos, grandes bocados de cenários.
17/01/2024
Rebel Moon Parte 1: A Menina do Fogo
Eduardo Barbosa ▪ 17 jan 2024
Um dia, enquanto semeia os sulcos do solo em uma lua distante com outra agricultora, Kora, uma forasteira, avista uma nave de guerra surgindo no céu da aldeia. São os homens do Mundo-Mãe. Todos ficam em alerta. Os recém-chegados querem a produção agrícola do local para alimentar os seus soldados. A resistência do líder da comunidade logo é vencida com sua morte. Aos amedrontados lavradores só resta obedecer e se resignar com a exploração que poderia levar ao esgotamento de suas terras cultiváveis. Enquanto alguns moradores tentam organizar um jeito de se livrar dos opressores, Kora decide ir embora dali. Mas ao sair de casa se depara com uma jovem sendo abusada pelos soldados. Ela ajuda a moça e sua interferência provoca um incidente no qual toda a aldeia é comprometida. Ficam livres dos primeiros intrusos. Mas logo chegarão outros. A única saída é organizar uma defesa para proteger a aldeia. No entanto, para montar uma resistência seria preciso recrutar especialistas em combate. Por ali todos são apenas agricultores. Kora e seu vizinho Gunnar partem com um orçamento baixíssimo em busca dos melhores rebeldes para defender seu povo da opressão do Regente.
Para quem já assistiu aos filmes de Akira Kurosawa é fácil perceber as semelhanças entre a história de Zack Snyder e Os Sete Samurais (1954). Na obra de Kurosawa um bando de ladrões saqueiam regularmente um aldeia de camponeses. Até que eles decidem contratar um samurai para protegê-los dos ataques. A única forma de pagamento é o escasso alimento produzido pelos aldeões. Para fazer o trabalho o samurai decide recrutar mais homens para o trabalho e ele consegue montar uma equipe de sete homens contra um violento grupo de quarenta bandidos.
Na década seguinte John Sturges refilmou a história no faroeste hollywoodiano Sete Homens e um Destino (1960). A adaptação ocidental do conto dos sete mocinhos contra quarenta ladrões trocou os samurais por pistoleiros e caçadores de recompensas e manteve a ideia original. No roteiro de Sturges uma cidadezinha do Oeste dos Estados Unidos é saqueada regularmente por bandoleiros mexicanos liderados pelo chefe Calvera até que os moradores contratam um pistoleiro desempregado para protegê-los dos ataques. Chris Adams, interpretado por Yul Brynner, o caubói androide de Wesworld (1972), parte em busca de outros homens para formar uma equipe contra os bandoleiros. Como o valor do pagamento pelo trabalho é quase irrisório Chris precisa utilizar seus ideais para convencer seus recrutas a ingressarem num plano heróico e suicida. Os dois filmes não são sobre heróis vencendo as forças antagonistas e coroados com finais felizes. São homens às margens da lei sacrificando a própria vida pela liberdade de um grupo oprimido.
Uma das referências de George Lucas para criar Star Wars é o filme de Kurosawa. Snyder volta na mesma fonte para tentar construir sua própria versão de um história intergalática de mocinhos azarados. E enquanto Lucas utiliza o tema mais geral de Kurosawa e se distancia das minúcias do conto japonês, Snyder estreita laços com a referência. Mas perder a mão em releituras dessa história de opressão e desejo de liberdade não é incomum. Foi o caso da versão de 2016 de Antoine Fucqua. Com um orçamento de 108 milhões de dólares o remake arrecadou apenas cerca de 160 milhões. Enquanto o original de Sturges custou 2 milhões e arrecadou quase 10 milhões de dólares.
A estrutura da história de Snyder está nas duas obras pré-Lucas. As últimas cenas do ato final escancaram essas referências ao mostrar a equipe de resistência chegando na aldeia com uma formação de sete rebeldes, como estampado em um dos cartazes do filme. Mas ao pesar a mão nas conexões com o universo Star Wars passa da originalidade para a cópia. Ainda assim as agruras dos aldeões comovem o espectador e os efeitos visuais são deslumbrantes e as criaturas fantásticas enriquecem os cenários. É inegavelmente deslumbrante na tela. Mas é impossível não admitir que Lucas já fez tudo isso com qualidade extrema. Rebel Monn tem muitas falhas a nublar sua suntuosidade visual.
Os personagens são inconsistentes. É flagrante no caso do General Titus que é encontrado bêbado e mendigando em uma rua e após ouvir algumas palavras de Kora nunca mais se toca em seus vícios. A motivação dos personagens para aceitar uma empreitada suicida é pouco convincente. Nemesis parece seguir o grupo sem ao menos precisar saber do que se trata. A trilha sonora é preguiçosa e funciona por algum tempo até se tornar repetitiva e enfadonha, como o slow motion empesteando o filme do começo ao fim. A história central dos agricultores contra os exploradores perde fôlego no terceiro ato e um ponto de virada faz a trama tomar outro rumo explodindo em uma batalha derivada de uma traição dentro do próprio grupo. Funciona apenas para eletrizar o ato final e deixar o desenvolvimento da trama inicial para o próximo filme. O elenco não consegue sustentar os personagens. A argelina Sofia Boutella nunca mantêm o tom da personagem Kora e cambaleia oscilante entre a mocinha de expressão sofrida ou a mocinha assustada ou a soldado durona capaz de provocar abalos na ordem do Mundo-Mãe. Não é coerente com o histórico da personagem e parece uma atriz errada para o papel. Ou a própria personagem é mal construída. Ed Skrein também não parece ser o ator certo para o antagonista Atticus Noble. O personagem se encaixa tão mal com o ator quanto o vilão de Eddy Redmayne em Jupiter Ascendig (2015) das irmãs Wachowski. Falta o elemento fundamental dos mocinhos de George Lucas. Aquela aura mágica de poder dos Jedi. Ou a aura de invencibilidade dos mocinhos de Kurosawa e Sturges. O extraordinário caracteriza esses personagens. Snyder ignora isso e derrapa. Rebel Moon apesar de vistoso e louvável como uma releitura original de um western clássico é cheio de escolhas duvidosas que prejudicam o filme.
Título original: Rebel Moon Part One: A Child Of Fire
Ano: 2023
Duração: 2h e 15min.
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Shay Hatten e Kurt Johnstad
Elenco principal: Sofia Boutella, Michiel Huisman, Djmon Honsou, Ed Skrein e Charlie Hunnan
Origem: EUA












