Em 1941 nasceu um menino em Bela Vista (MS) no Centro-Oeste brasileiro, filho de um pai militar (Rômulo Braga) e uma mãe dona de casa (Hermila Guedes). Deram-lhe o nome de Ney de Souza Pereira (Davi Malizia) e lhe ensinaram como ser um legítimo representante de uma família tradicional. Mas ele nascera desencaixado. Se estabeleceu um conflito entre pai e filho. Um procurava uma ordenação de acordo com seus valores e rejeitava o insubordinado e o outro buscava a liberdade de existir como um divergente e ser amado em sua diferença. Desse choque entre repressão e liberdade brotou uma icônica e subversiva figura na paisagem da música brasileira, Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa). É, portanto, esta história de busca por afeto e autoafirmação que o diretor Esmir Filho apresenta no longa-metragem Homem com H (2025).
A cinebiografia é composta por uma seleção de recortes em ordem cronológica. Momentos da trajetória do protagonista. Há cenas da infância sob o jugo de um pai agressivo com suas tentativas violentas de impor uma ideia hegemônica de masculinidade ao filho. Há a expulsão de casa ressignificada pelo jovem como uma escolha própria e sua entrada na carreira militar para confrontar o pai. Há suas tentativas de se estabelecer no teatro. E, finalmente, essa seleção desemboca na sua entrada na música. A sequência constrói um retrato minucioso sobre o nascimento de um artista em um lugar onde ele não pode existir. Esse lugar não é o espaço físico, mas o ambiente familiar.
No entanto, se a família lhe castra o desejo através do pai, a mãe se torna uma possível chave para o escape. Isso se evidencia em uma das cenas iniciais do filme. Beíta o leva ao show de uma emissora de rádio. Sentam-se. A atração era Elvira Pagã, uma diva do Teatro de revista nos anos 40, considerada a primeira mulher a usar um biquíni em Copacabana e a primeira rainha do carnaval carioca. Um símbolo da subversão das normas à época com seu uso erótico do próprio corpo. Interpretada pela cantora Céu, voz contemporânea da MPB, veste um biquini com estética pin up e estampa de onça. Há animais no figurino e na canção. A câmera captura a reação do menino com um enquadramento em primeiro plano. Ele fica extasiado. Elvira é a representação de um feminino indomesticado, insubmisso. Esse encantamento por uma figura exuberante, subversiva e aplaudida, conduzirá o protagonista à construção de sua personalidade. O projeto de masculinidade que lhe aguarda em casa não o comporta. Mais tarde se apropriará de um feminino selvagem enquanto recusa o ordenamento tradicional. O processo é antropofágico. Ele incorpora partes do pai. Seu nome artístico é um pedaço do seu genitor.
O desejo de se afirmar e buscar a aceitação familiar é a liga a garantir ao filme não ser apenas uma colcha de retalhos construída com pedaços de eventos ocorridos ao longo de sua vida. O acerto de Homem com H é transformar a relação de Ney Matogrosso com o pai em uma subtrama envolvente. O espectador quer saber se o rapaz conquistará ou não o homem que lhe fez nascer e o rejeitou. É uma história de amor. Contêm os típicos enamoramentos e obstáculos e rejeições comuns ao gênero. Para obter o amor almejado, o rapaz precisa ser o Homem do pai. Os parâmetros da masculinidade dentro do padrão hegemônico produzem um homoafeto. E eis a encruzilhada do personagem, ele escolhe a liberdade ou o amor? O masculino andrógino rejeitado ou o machão amado?
Trama e subtrama estão amalgamadas na estrutura do roteiro. Uma alimenta a outra. Esse desenho faz o espectador transitar por cenários emotivos diversos. Há momentos nos quais é possível odiar o pai junto com o protagonista. Em outras cenas nos emocionamos com as perdas para a epidemia de Aids de seus amigos, amantes e companheiros. Há momentos de leveza com os quais rimos com os personagens. E as sequências de shows têm energia suficiente para nos transportar para um ambiente pulsante. Essas sensações são ampliadas pelo uso de música diegética, cantada em cena, e pelas interpretações de um elenco a empregar bocados fartos de naturalidade nas atuações, como atestam as sequências de flertes na praia.
Quase espelho do protagonista, o filme não teme doses generosas de sensualidade e pele às frescas. Erotizam a tela as bundas e peitos de homens. Há cenas de sexo gay enquadradas em planos que não se furtam em exibir a inteireza dos corpos nus. Mostrar é existir. Essa é a tônica da figura retratada. No entanto, há limites e estes se evidenciam em tomadas nas quais determinadas partes do corpo do protagonista são forçosamente escondidas. Os enquadramentos preocupam-se mais com a classificação indicativa e menos com a necessidade das cenas. É curioso, por exemplo, ver um nu frontal censurado exatamente em uma sequência sobre uma operação dos censores da ditadura militar em um show do cantor.
A erótica de Homem com H teme cruzar a fronteira do sensual e tornar-se pornográfica. O resultado é certa higienização do personagem. Partes específicas de seu corpo estão proibidas na tela. O filme não sustenta a transgressão do personagem. Opera-se um jogo de mostrar e esconder no qual o oculto é bastante revelador. É o público ou os agentes do mercado cinematográfico que tem medo de um pau na tela?
Eduardo Barbosa ▪ 30 jun 2025
HOMEM COM H
Origem: Brasil
Ano: 2025
Duração: 2h 15min.
Direção: Esmir Filho
Roteiro: Esmir Filho
Elenco principal: Jesuíta Barbosa, Romulo Braga, Hermila Guedes
Davi Malizia, Bruno Montaleone, Caroline Abras, Mauro Soares e Lara Tremouroux.








