Perro Perro (2025), do argentino Marco Berger, transforma uma premissa aparentemente absurda numa reflexão desconfortável sobre os limites do afeto. Para o espectador desavisado que cai de paraquedas neste conto fabular, a história pode soar ridícula à primeira vista. Mas desconhecer sua premissa enriquece a experiência.
Em um flerte com o absurdo tipicamente onírico, o primeiro ato deixa o espectador à deriva. Como reagir à personagem que enxota pela janela um “homem” nu no quintal? De quem falam as mulheres quando se referem aos “selvagens da ilha”? Por que um jovem desnudo que surge do meio do mato é recebido pelo protagonista com assobios e afagos na cabeça, como se fosse um cachorro? Aos poucos, a lógica da narrativa se revela e a premissa, por mais incomum que seja, torna-se compreensível.
Dois casais passam as férias em uma casa de veraneio situada numa ilha bucólica. A ilha é tomada por uma vegetação exuberante e é cercada por água. A rotina dos quatro se altera quando Juan (Germán Flood), durante um passeio de barco, encontra um “homem” perdido (Juan Ramos), que o segue até a casa. Entre os primeiros gestos de aproximação está um copo oferecido por Juan ao recém-chegado, prontamente aceito. O filme registra esse gesto simples de acolhimento com atenção. O enredo parece trivial até que se compreende a regra fundamental do filme: Berger substitui os cães por homens. A partir dessa inversão, cada gesto cotidiano passa a adquirir um sentido inesperado. Não por acaso, o elemento que acompanha esse primeiro encontro também reaparece no desfecho, transformado em signo de separação.
Juan Ramos interpreta um cachorro e age como agem os cães. Não se trata de uma paródia. O personagem é, de fato, um cachorro. Nesse universo fabular, porém, cães são chamados de homens e cadelas de mulheres. O “homem” encontrado por Juan é um jovem macho de cabelos cacheados e olhos afetuosos abandonado na ilha por donos negligentes. Sua chegada desencadeia a relação que sustenta todo o filme.
Juan e o “homem” tornam-se inseparáveis desde o primeiro encontro. O rapaz faz cafuné nos cachos do vira-lata, acaricia seu peito, aspira seu cheiro, beija-lhe a boca e lhe dá um nome: Max. Gostaria de levá-lo consigo para casa. A namorada, porém, sequer aceita que o bicho pise na varanda da casa de veraneio. Não suporta homens dentro de casa. Ainda assim, a relação entre os dois se desenvolve rapidamente. Há fugas, reencontros, quebras de confiança, momentos de tristeza e novas aproximações.
Todo apresentado em preto e branco, o filme trabalha bem os corpos nus em cena. Quem conhece a filmografia de Berger sabe que a nudez masculina ocupa um lugar central em seu cinema queer, e em Perro Perro (2025) ela atravessa toda a narrativa. Max permanece nu do início ao fim, mas Berger evita fragmentar seu corpo em partes isoladas, como frequentemente faz o cinema hollywoodiano. Ao contrário, preserva sua inteireza. O preto e branco suaviza essa exposição, mas não elimina seu potencial de estranhamento. É justamente a nudez que confere à história parte de seu desconforto homoerótico. Juan se apaixona por um animal. Os dois personagens se cheiram, se abraçam, se beijam e dividem momentos de intimidade que colocam constantemente à prova as categorias por meio das quais o espectador costuma distinguir homem e cão. A construção desse erotismo depende menos das imagens em cena e mais da disposição do espectador para aceitar ou resistir à lógica fabular proposta pelo filme. Há um intervalo de adaptação até Max deixar de ser percebido apenas como um homem nu e passar a ser compreendido como a figura híbrida imaginada por Berger. A tensão entre essas duas leituras nunca desaparece por completo. O filme condensa homem e cão em um único corpo e sustenta esse conflito até o fim. Não se trata de uma comédia absurda, mas de um drama fabular que cresce à medida que explora as consequências dessa fusão.
Como o personagem canino se comunica sobretudo por gestos e expressões faciais, há uma profusão de planos médios, planos conjuntos e primeiros planos. A cena em que Juan se senta na cama após perder o sono e observa a noite pela janela é um dos melhores planos médios do filme. Max, proibido de entrar na casa, deve estar sozinho em algum lugar lá fora. A composição articula a figura do personagem com a janela iluminada, estabelecendo uma tensão entre interior e exterior. Mais do que registrar um quarto, a imagem materializa visualmente um estado de espera. A janela deixa de ser apenas um elemento cenográfico e passa a funcionar como vetor simbólico da ausência e do desejo. Esta é uma das cenas que melhor evidencia como o preto e branco funciona nas sequências noturnas e nos interiores da casa.
A outra ocorre quando os dois dividem um picolé. Ambos o comem na mão de Juan às bocadas e, em seguida, Max reclina a cabeça sobre seu ombro. O plano conjunto privilegia a convivência dos corpos e a intimidade construída entre eles. Em vez de recorrer a closes para enfatizar emoções, o enquadramento acompanha os personagens compartilhando o mesmo espaço, integrados à vegetação ao redor. A fotografia investe em uma contraluz acentuada que produz um halo luminoso ao redor de suas cabeças e ombros. Somado ao forte contraste entre luz e sombra, o efeito confere à cena uma dimensão quase transcendente, como se aquele momento suspendesse temporariamente as hierarquias que estruturam a relação entre os dois.
Os pontos de tensão são bem construídos. Um dos mais fortes ocorre quando Juan amarra o inseparável companheiro a uma escada nos fundos da casa porque uma visitante tem pavor desses bichos. Enquanto a vida social segue na varanda, Max é relegado à margem daquela convivência. A fuga marca o primeiro grande crescimento da trama. Que amor é esse que amarra quando a presença se torna inconveniente? Qual a diferença entre prender um cão dócil a uma escada e prender um humano no mesmo lugar? O primeiro gesto costuma ser tratado como uma prática banal do manejo canino; o segundo seria imediatamente reconhecido como violência.
Juan o alimenta com restos à mesa, reserva-lhe as escadas para o sono noturno e o afasta sempre que ele tenta acessar espaços e recursos destinados à vida humana. É difícil não se incomodar com a assimetria dessa relação. Max oferece companhia, afeto e devoção; Juan responde com cuidados condicionados pela conveniência. O vira-lata abandonado lança olhares tristes para aquele a quem se apega enquanto os demais discutem, sem qualquer constrangimento, o quanto sua presença é custosa. O filme acerta ao colocar o espectador diante de uma pergunta incômoda: quem pode afirmar que esse outro não compreende aquilo que se diz sobre ele? O picolé compartilhado teria sido apenas um gesto de afeto incapaz de sobreviver às primeiras dificuldades?
É cômodo negar humanidade àqueles que se situam fora das fronteiras do "humano". Em Perro Perro, essa lógica aparece na forma como os “cães selvagens” da ilha são percebidos pelos veranistas. O “homem” abandonado oferece a Juan companhia, afeto e devoção em troca de abrigo, alimento e carinho. Em outras palavras, propõe uma forma de convivência. Mas Juan raramente consegue enxergá-lo para além da condição de animal de estimação. Seu afeto é genuíno, porém permanece atravessado por uma hierarquia que lhe permite decidir quando Max pode ser acolhido, ignorado, afastado ou abandonado. O filme encontra parte de sua força justamente nessa contradição. Juan ama Max, mas esse amor não é suficiente para que o reconheça como um igual. O gesto mais cruel de Juan não é abandoná-lo. É amá-lo sem jamais deixar de tratá-lo como propriedade.
O espectador já está acostumado ao insólito quando o último ato anuncia sua chegada com cenas duras e desconfortáveis. Durante quase todo o filme, Berger confia nos sons ambientes da ilha para sustentar a atmosfera. Nos minutos finais, porém, uma música assume a condução emocional da cena. O filme passa boa parte de sua duração sustentando o desconforto sem oferecer respostas emocionais prontas. A música reforça sentimentos que os gestos, os silêncios e a convivência entre Juan e Max já haviam construído com eficiência. O dilema final é suficientemente doloroso por si só. Juan precisa decidir se abandona Max na ilha ou se reorganiza a própria vida para levá-lo consigo. O que está em jogo não é apenas a permanência de Max, mas o preço que Juan está disposto a pagar para mantê-lo ao seu lado. Afinal, amar Max nunca foi o problema. Conviver com ele como um igual é que sempre foi. Max nunca hesita em seguir Juan. O filme inteiro existe para descobrir se Juan será capaz de fazer o mesmo.
Eduardo Barbosa ▪ 19 jun 2026
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PERRO PERRO
Origem: Argentina
Ano: 2025
Duração: 1h 41min.
Direção: Marco Berger
Roteiro: Marco Berger
Elenco principal: Juan Ramos, Germán Flood, Matias Quiroga, Carlos Naso, Andana Dante, Bianca Brandimarte, Marcela Avani.