23/07/2026

Passenger (2026): o demônio do nomadismo

Sob a superfície de um terror sobrenatural, Passenger (2026) parece fazer mais do que contar a história de um casal perseguido por um demônio. Aos poucos, o filme organiza um discurso que transforma o retorno à vida convencional na única saída desejável.

Maddie e Tyler resolvem deixar o estilo de vida convencional para viver em uma van pelas estradas. O espectador percebe logo no primeiro ato do filme que ela ainda tem algum apego pela vida que logo será abandonada. O plano detalhe no qual ela observa um tapete com a frase “lar, doce lar” indica uma sensação de perda. Ela está às voltas com a despedida do espaçoso apartamento urbano quando ouve a buzina musical da van chegando lá embaixo na rua. Enquanto ela hesita diante da despedida, ele já parece viver a nova vida.

O contraste já se anuncia desde o início do filme. Ela não está tão certa de que o nomadismo minimalista é o estilo de vida mais adequado no momento. Ele chega contente, sem emprego, sem preocupação com locação de moradia e certo de que dar um fim aos móveis é melhor do que guardá-los. “É bom se desapegar”, diz Tyler demonstrando convicção. Ele parece ter a cabeça na viagem da nova vida. Ela parece ainda estar com os pés no chão.

O casal cai nas estradas de alguma região dos Estados Unidos e seus planos não demoram a ruir. A causa da ruína da nova vida não é a dificuldade de Maddie para se adaptar ao nomadismo. É a presença de uma entidade maligna na estrada. Essa figura assassina assombra a região há tempos remotos provocando acidentes fatais. Eles acabam virando um novo alvo.

Em um primeiro momento, a moça vê os sinais, vê o demônio, e o namorado não. Ele desconfia que ela só está tentando boicotar sua nova vida. Afinal de contas, ele está feliz, ela não. Ele se diverte encontrando amigos em encontros de nômades. Ela se depara com pessoas mal-encaradas e anúncios de casais e pessoas desaparecidas. Maddie vê perigo o tempo todo. Tyler vê a vida que sempre desejou.

Não demora muito para essa oposição entre homem racional e mulher paranoica desmoronar, cedendo lugar a uma tentativa desesperada de sobreviver a um demônio implacável que nunca desiste de seus objetivos assassinos. Tudo desmorona aos poucos. O relacionamento entre os dois sofre abalos. Maddie começa a imaginar que adotar o nomadismo foi uma péssima ideia e talvez já estivesse convencida disso antes mesmo de pegar a estrada. Mas antes de se haver com essas escolhas de vida convencional ou alternativas, será preciso sobreviver ao andarilho demoníaco.

O filme é farto de planos fechados, privilegiando os rostos mesmo em áreas abertas para estampar na tela o desespero. Os jump scares funcionam, embora alguns pareçam forçados, como aqueles nos quais a personagem fica sozinha, mesmo com uma entidade maligna em sua caça. Maddie sempre fica sozinha por motivos banais. A cena de um estacionamento, por exemplo, em que ela precisa atravessar um amplo espaço à noite soa forçado. O namorado não a acompanha porque está baixando um filme dentro da academia. A solidão é uma engrenagem forçada, no entanto, é funcional. A caminhada até a van é a caminhada em direção ao perigo que o nomadismo representa.

Quando as coisas se complicam, tudo se torna perigoso. As áreas afastadas da cidade concentram a ameaça. As estradas cercadas por árvores são mortais. A noite rural guarda o mal. Os acampamentos de nômades os repelem. Os espaços urbanos são seguros. As estradas representam morte certa para o casal. Já os restaurantes, as academias, as lojas de conveniências são espaços nos quais o casal busca meios de combater o mal. Não por acaso, a sobrevivência depende sempre do retorno aos espaços organizados pelo consumo. A salvação parece estar na mercadoria.

É evidente que o filme lança mão do nomadismo para isolar os personagens e fazer o terror funcionar. Não é à toa que Maddie está sempre às voltas com uma solidão temporária e ameaçadora. Ao mesmo tempo, esse expediente acaba produzindo um discurso que demoniza os modos de vida não convencionais. O ato final escancara a demonização do nomadismo. O rapaz aceitou voltar ao antigo emprego. “Vamos comprar uma casa num condomínio fechado, com um cão de guarda. Pedir comida toda noite. E nunca sair de lá.” Diz Tyler contente, enquanto Maddie concorda alegremente. Isso mostra que o demônio funciona como um dispositivo narrativo que torna desejável o retorno à vida convencional. As engrenagens dessa vida “normal” só funcionam porque gente como Maddie e Tyler trabalham incansavelmente para alugar casas, pedir comida em deliveries, comprar móveis e eletrodomésticos e criar cães e filhos. Sob essa perspectiva, qualquer vida cuja lógica não se organize pelo consumo e pela produção torna-se, em si, o próprio demônio a ser exorcizado.



Eduardo Barbosa
▪ 23 jul 2026



_____________________________________________________________________________________

 

PASSENGER

Origem: Estados Unidos

Ano: 2026

Duração: 1h 37 min

Direção: André Øvredal

Roteiro: Zachary Donohue, T. W. Burgues

Elenco principal: Jacob Scipio, Llou Lobell, Melissa Leo