Um mundo a parte (2024): uma região montanhesa bucólica é o cenário da história de um professor da metrópole tentando sustentar suas ideias ecológicas em um vilarejo interiorano

_________________________________________________________


Michele Cortese (Antonio Albanese), um professor de ensino básico da capital, desanimado com seu trabalho, pede transferência para a escola de uma vila de montanheses. O protagonista chega ao vilarejo enfrentando uma série de dificuldades. A nevasca o deixa preso em uma estrada deserta. Suas roupas de inverno não são adequadas ao frio local. E quando, finalmente, é alocado em sua nova moradia sequer consegue acender o fogão de lenha a servir de aquecedor.

Mas Michele vê beleza em todas as adversidades de seu novo local de trabalho. É o lugar ideal para ensinar suas ideias ecológicas rechaçadas pelos alunos da capital. Começará pelo futuro da região. No entanto, ao iniciar sua pregação salvadora há uma reação contrária de alguns pais. Não querem seus filhos cultivando esperanças ou as terras do vilarejo. Eles já tentaram e não obtiveram êxito. O melhor para eles está longe dali, em cidades maiores e com maiores possibilidade de uma vida confortável.

O filme delineia os contornos desse conflito de perspectivas. O metropolitano vê esse espaço bucólico como uma esperança de harmonia entre os homens e a terra. Já os habitantes só veem a dureza de uma vida castigada por invernos rigorosos, trabalhos exaustivos, e falta de conforto. As crianças não querem ser montanhesas. Querem ser youtubers. O mundo a ser salvo, desejado por Michele, só existe em sua própria forma de ver o ambiente em seu entorno. Logo, também passa a ser rechaçado pelos moradores da comunidade.

Um novo problema põe fim às preocupações iniciais do professor. A escola está prestes a ser fechada. Não há alunos suficientes para mantê-la funcionando no próximo período letivo. O prefeito da cidade sede do vilarejo não se importa com o fechamento. Seria bom para a economia de sua cidade se os montanheses se mudassem para lá com seus filhos. O novo problema de Michele e dos colegas é impedir o fechamento. Começa uma corrida desesperada para encontrar crianças com a idade ideal para integrar o corpo de alunos da escola. Eles lançam mão de falsificação de atestados médicos e recrutamentos informais de refugiados de guerra. Tudo para manter a escola e o vilarejo vivos.

Essa comunidade não é o único personagem em ruínas. O próprio Michele é um amontoado de cacos. O engajamento com a nova luta e com os hábitos locais efetuam sua reconstrução. Ele passa a falar a mesma língua dos montanheses e deixa de lutar as próprias batalhas para se engajar com as questões do vilarejo. Sua nova ecologia derivada desse processo não tem mais como único objetivo salvar o planeta. São aquelas pessoas que precisam de ajuda. Elas são a terra.

Os tons da fotografia representam bem os estados de espírito dos personagens. As cores frias nos ambientes internos e invernais nos exteriores predominam na paleta de cores durante a maior parte do filme. Revelam não só a resignação dos montanheses com o futuro da vila, mas a própria interioridade do protagonista. A mudança na paleta chega ao fim do terceiro ato, transformando-se em solar, fresca e intensa, em consonância com a chegada de uma nova estação e com os resultados da guerra entre o prefeito e os habitantes da montanha.

Quando Michele toma a estrada de volta à sua antiga vida o cenário é outro. Não há mais nevascas, árvores desfolhadas, nem aquela aparência de desolação das cenas iniciais do filme. Apenas o chão do caminho de retorno é uma linha cinza em seu horizonte. O fim do inverno trouxe consigo uma fauna e flora pujantes. O verde inunda os contornos da rodovia. 

O roteiro é eficaz na construção do protagonista. A história começa com um homem em frangalhos e termina com uma transformação completa. É como uma passagem do inverno para a primavera. Passa de rechaçado à companheiro. A comunidade o abraça. Mas quando o prazo de sua transferência temporária acaba ele precisa retornar para a capital. Michele percorre a estrada de volta como um montanhês o faria, destroçado. E o espectador sente a dúvida o inundar. Ele deixará de ser um montanhês? A cena final responde.

Eduardo Barbosa ▪ 27 nov 2024

Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319