The Cage - Na gaiola (2023): uma ex-atleta de MMA quer retornar ao octógono, mas o namorado dominador e violento é contra sua independência neste filme de busca por liberdade

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Giulia é uma ex-atleta de Artes Marciais Mistas. Uma derrota traumática interrompeu sua carreira e ela passou a se dedicar ao trabalho em um zoológico de tigres com o namorado, o proprietário do estabelecimento. De vez em quando retorna à academia na qual treinava, suscitando desentendimentos com o companheiro. Ele é membro de uma comunidade religiosa. Um homem dominador. Quer um casamento com uma mulher submissa. Mas Giulia não é subserviente ao companheiro e tem outros planos para si.

Ela deseja retornar ao MMA. Ele não aceita. Acha essa escolha um tipo de provação divina para lhe testar. Torna-se mais violento, a agride física e psicologicamente. Entre uma cena e outra, é um homem a equilibrar religiosidade com brutalidade.

O padre da comunidade religiosa pressiona a submissão de Giulia ao namorado. Seria de bom tom ela lhe dar uma família ou o rapaz poderia voltar a ter problemas com entorpecentes. É como se ela tivesse a obrigação, por ser mulher e estar com ele, de ser sua mãe, sua cuidadora, seu medicamento de regulação emocional.

Giulia passa a enfrentar doses altas de machismo e misoginia para bancar suas escolhas. Aparecem os obstáculos. O namorado transformará o zoológico em um parque safári. Conseguiu um investimento de um banco. Como não há funcionários além deles, ela é pressionada a se dedicar ao empreendimento, em detrimento de seus treinos. Mas, ela não está disposta a ceder. Há novos desentendimentos.

Ela retorna ao octógono e faz um bom trabalho. Vence luta após luta. Contudo, nenhuma por finalização. Isso se torna um problema. Seu maior temor é ir ao chão para finalizar e repetir a última derrota. A treinadora quer uma atleta eficiente, a vencer por finalizações. Ou ela tenta se uma atleta de alto desempenho e mostra isso na próxima luta, a mais importante desde o retorno, ou não trabalharão mais juntas. O namorado também lhe lança um desafio. Se ela vencer essa próxima adversária, ele passará a apoiar sua carreira. Se perder abandonará o MMA e se dedicará exclusivamente ao trabalho com os tigres. Giulia, desejando manter o relacionamento com ambos, aceita as propostas.

O dia da luta chega. Ela sobe ao octógono. Aplica alguns golpes e apanha até ser nocauteada. Lhe escapa os motivos do seu baixo desempenho. E então chegam os resultados do exame antidoping. Alta concentração de ansiolíticos. Ela não toma tal medicação. Como a substância foi parar em seu corpo? Ao chegar em casa, descobre um frasco de ansiolítico vazio na lixeira da cozinha. Percebe a sabotagem.

Os tigres enjaulados se espalham pelo filme, a princípio como metáforas bem encaixadas na trama. A condição de Giulia em seu relacionamento violento a torna como um daqueles animais. Se em casa ela se vê às voltas com um namorado dominador e lhe custa resistir, na academia é pura pulsão de uma violência quase incontrolável. Sua reação ao descobrir a sabotagem é seguir ao zoológico e abrir as portas da jaula do tigre mais agressivo do grupo. Mais claro, impossível. Ela não está soltando o animal. Está libertando a si mesma. É uma pena a metáfora perder força no terceiro ato, devido a diálogos explicativos demais.

Seu passo seguinte é retornar ao octógono para a revanche contra a adversária responsável por seu afastamento traumático. Vencer lhe garantirá o título de Peso-mosca. Então, o namorado a pede em casamento. São os dois obstáculos em sua carreira surgindo no mesmo momento. Ela precisará bancar suas escolhas para desenjaular-se

A direção de arte constrói ambientes de academia e de competição abarrotados de objetos típicos destes espaços, fornecendo as doses certas de credibilidade para as cenas. A direção consegue extrair desses cenários treinamentos e coreografias de luta bem executados e os enquadramentos foram pensados para garantir ao espectador a sensação de estar diante de atletas e não de atrizes a interpretar atletas.

Nesse jogo de interpretações e direção de arte convincentes, com uma trama envolvente, quem ganha é o espectador. A última luta no octógono torna-se outra metáfora. O verdadeiro adversário de Giulia é um relacionamento tóxico a arrastá-la para o fundo do abismo da submissão feminina ao homem. O final cheio de adrenalina e libertações é catártico.

Eduardo Barbosa ▪ 25 nov 2024

Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319