Rebuilding (2025), de Max Walker-Silverman, lembra The Rider (2017), de Chloé Zhao. Mas dá um passo além. O protagonista no filme de Zhao olha para si mesmo o tempo todo. É um homem às voltas com seus próprios problemas derivados de um desastre pessoal. Um cowboy impedido por um acidente de trabalho de retomar sua vida de domador de cavalos. Em Rebuilding (2025), o desastre é coletivo. Dusty (Josh O’Connor), criador de gado, e seus vizinhos têm que enfrentar as consequências de um incêndio que devorou árvores, fazendas e casas. O fogo, eles sabem, tende a retornar. É um risco perene. Emerge dessa configuração um sujeito do desastre que precisa repensar seu modelo de “homem da cerca”. É justamente aí que Walker-Silverman leva a discussão para outro lugar. O protagonista precisa decidir se continua pensando apenas em si mesmo ou se volta para os outros ao seu redor.
Esse homem da cerca, trinta e poucos anos, solteiro e caladão, acabou de ver sua propriedade reduzida a cinzas por um incêndio de grandes proporções. O espectador ouve o crepitar das chamas, avista as árvores carbonizadas. Escuta os motores das máquinas removendo os escombros. O plano conjunto dos trabalhadores, observado a partir de um primeiro plano desfocado do protagonista, mostra-o desolado. Tudo o que ele possuía já não existe mais. Dusty também faz parte do cenário. Ele é como os pregos da antiga madeira de sua casa, registrados em um plano detalhe, segurando-se em carvão e cinzas.
Pouco depois, o espectador descobre que ele é um pai ausente de uma menina de dez ou doze anos, Callie. Ele passa em frente à casa da ex-companheira. Desce da caminhonete. Bate na porta. Diz que só sentiu vontade de passar ali, mas já pretende ir embora. Ela insiste que veja a menina. Ele não quer. Tudo indica que pouco investiu na relação com a filha. Por outro lado, enluta-se com a queima do rancho como se ali estivesse depositado um afeto que nunca encontrou lugar na relação com a filha.
Ao perder a casa, vender o gado e mudar-se para um conjunto de trailers, Dusty finalmente se volta para sua filha, cuja ausência parecia ter sido preenchida pelo rancho. Sem a propriedade, resta-lhe a menina para quem passa a direcionar o afeto antes concentrado na terra. A chegada dela traz consigo também o nascimento de um pai. É com esse tipo de reconstrução que Rebuilding (2025) trabalha. Aos poucos fica claro nesse reencontro que não é Dusty que fez uma filha. É a filha que precisou fazer um pai.
Há uma cena em que a menina lhe empresta seu tablet para ele resolver um problema das vizinhas idosas com o serviço social. De cima da caminhonete, a menina observa os três. Enquanto o pai preenche o formulário no tablet de cor laranja, ela sorri. O momento sugere que, se o pai consegue cuidar de mais alguém além dele mesmo, pode cuidar dela. Callie o ensina a ser um contador de histórias, a aprofundar relacionamentos com os vizinhos e a iluminar as paredes do trailer com estrelas que brilham no escuro para uma noite exclusiva dela com a nova amiga naquele espaço exíguo. A reação silenciosa dos três diante da iluminação produz um dos momentos mais delicados do filme. Aos poucos, ela o ensina a olhar para fora de si.
A paternidade construída a conta-gotas vai definindo os novos sentidos da vida do protagonista, à força, contra sua vontade. Seu desolamento concentra-se na perda do rancho, nunca no abandono da filha. Sente-se angustiado no novo emprego que arranjou. Quer se mudar para outro estado em que um parente tem um rancho e, quem sabe, por lá será útil na lida com as vacas. Veja, Dusty é um típico homem da cerca. Ele não quer se mudar para ajudar o parente, mas para continuar sendo quem era antes do incêndio. Até partir seria uma maneira de permanecer cercado.
A vivência com a filha e com os vizinhos nos trailers aos poucos promove uma reconfiguração desse sujeito do desastre. Dusty começa a ser reconstruído das cinzas do rancho enquanto suas cercas internas caem. E isso se efetiva de tragédia em tragédia, num arco dramático que o conduz sucessivamente a novas perdas. É no desastre que o rancheiro aprende a aceitar e oferecer afeto. A descoberta do afeto é a sua dádiva do fogo.
Uma das cenas mais precisas dessa reconfiguração afetiva ocorre quando os vizinhos compartilham suas histórias sobre as perdas mais dolorosas causadas pelo incêndio. Na vez de Dusty falar, ele não quer. A filha insiste. Ele cede. “O estranho é que me lembro de coisas que já se foram”, ele diz. “Como o violino da mamãe com um chocalho dentro, os desenhos da Callie do jardim de infância...” Não há qualquer música orientando as emoções do espectador. Mas há aquela expressão de desamparo característica de O’Connor, registrada em um meio primeiro plano contra um fundo no qual se avista a vastidão de um ambiente contendo apenas montanhas e arbustos baixos e ressecados. Em contraste com a trilha musical suave e quase constante, os diálogos e a expressão de O’Connor tornam essa uma das cenas mais tocantes do filme. O conjunto imprime um tom quase palpável de desolação e sofrimento. É possível sentir-se comovido com Dusty ao mesmo tempo em que se apontam suas contradições em relação à paternidade. Ele sentia falta da filha, mas foi o vínculo com o rancho que acabou ocupando o centro de sua vida.
O tom desolado do protagonista atravessa do primeiro ao terceiro ato. Ao final, Dusty precisa tomar uma decisão radical. Em outro estado está a oportunidade de voltar a ser quem ele sempre foi, mas terá que abandonar a filha por quem se afeiçoou. Se permanecer ali, naquele lugar de riscos, poderá se sentar sobre os escombros, esperar que a terra se recupere e ver a filha crescer ao seu lado, como ambos desejam. É com as montanhas ao fundo, em uma paisagem de encher a vista, que o espectador fica sabendo se ele parte para ser quem sempre foi, um homem da cerca, ou se torna outro com a filha.
Eduardo Barbosa ▪ 03 ago 2026
