Outro verão em família (2024): a desesperança com os rumos da política italiana é a tônica do agitado filme de Paolo Virzì

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Duas famílias se encontram em uma ilha italiana. A família Molino vai à Ventotene para conceder um último desejo ao seu patriarca, um jornalista a viver seus últimos dias de vida. Já os Mazzalupi estão ali para uma cerimônia de casamento de uma influenciadora digital. É um filme com uma pluralidade de personagens. Há uma cacofonia de arcos e conflitos. Os personagens centrais tornam-se as famílias e Paolo Virzí delineia um tema de fundo sobre o qual ambas se assentam, de formas diferentes. Esse substrato da trama é a política italiana.

Sandro (Silvio Orlando), o jornalista, materializa uma esquerda em seus últimos suspiros. Ambos estão à beira da morte. Enquanto ele se empenha em redigir uma carta endereçada a presidente da Comissão Europeia, em defesa da memória da velha esquerda italiana, a nova geração dos Molino enriquece criando aplicativos de celular. A ideia de bem-comum está sepultada. A política a encantar as novas gerações é a ideia de cada um por si. Enquanto isso, a jovem casadoura da outra família está às voltas com uma candidatura por um partido de extrema-direita, a nova moda política italiana.

A trama se recobre de um humor ácido. Altiero Molino (Andrea Carpenzano), o jovem bilionário, tem o nome emprestado de uma figura influente da esquerda italiana, Atiero Spinelli. Entre os opositores do regime fascista, encarcerados entre 1941 e 1945 em Ventotene, estava Spinelli. Foi ali, preso na ilha, que ele redigiu um dos primeiros manifestos a engrossar o caldo da ideia de uma Constituição dos países europeus. Crítico de Mussolini, o jornalista e militante comunista, foi condenado a dezesseis anos de reclusão nesse mesmo local onde Paolo Virzí ambienta sua história. Sandro deseja criar um memorial na ilha com os resquícios desse passado de luta antifascista. Mas Sabbry (Anna Ferraioli Ravel), a jovem influenciadora digital da outra família, demole os últimos vestígios materiais dessa história para abrigar a festa de seu casamento.

A câmera, ao contar essa trama, raramente permanece parada. Reflete a instabilidade da vida desses personagens. Todos os planos ameaçam ruir. O projeto de Sandro vira pó sob os tratores. O casamento de Sabbry fica por um fio. Doenças e mortes espreitam as duas famílias. A perversidade da extrema-direita ganha popularidade. A esquerda desceu ao túmulo. Os conflitos e os personagens pipocam em quadros trêmulos a representar um mundo caótico. Virzí mistura em doses vertiginosas um passado em frangalhos com um futuro de individualismo patológico, xenófobo, homofóbico e fascista.

No contexto italiano dentro do qual é escrito o longa-metragem a extrema-direita governa o país e o cineasta imprime sua desesperança no roteiro. O personagem representante de um ideal de mundo mais justo e igualitário está condenado a morte com suas ideias. A nova política reescreve a história, demolindo a memória antifascista. E assim o filme discute política com uma trama agitada e populosa e recheado de doses de ironia. É um ensaio a explorar as camadas dos discursos da direita e da falência das vozes da esquerda. 

Eduardo Barbosa ▪ 29 nov 2024



Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319