Os conflitos éticos de um psiquiatra em O penitente (2023), de Luca Barbareschi

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Um psiquiatra religioso vê sua vida desmoronar quando um de seus pacientes, um jovem gay, comete um massacre em uma universidade. A imprensa publica uma carta na qual o rapaz o acusa de homofobia. Um jornal transcreve uma afirmação sobre homossexualidade de um dos livros do psiquiatra com um “erro” de digitação confirmando a acusação. Sua única saída é um depoimento com a entrega das anotações do tratamento terapêutico do paciente. Mas ao fazê-lo, o psiquiatra violaria seu juramento de manter em sigilo as conversas trocadas no consultório. Violaria também suas convicções religiosas. E assim, a trama do longa-metragem de Luca Barbareschi gira em torno da capacidade de Hirsh, protagonista interpretado pelo próprio diretor, de ser fiel às suas convicções ou de traí-las para salvar a própria pele.

O roteiro constrói um arco de ruína para o protagonista e ambienta a história em uma Nova York permanentemente nublada. O cenário externo chuvoso, trovoante e escurecido, reflete tanto o estado de espírito de Hirsh, quanto a tempestade armada ao seu redor. A imprensa o encurrala. O advogado o pressiona para depor em favor do paciente. O Conselho de Medicina ameaça cassar seu registro. A esposa não entende suas decisões e as brigas são constantes. Sua vida torna-se um gigantesco temporal.

Os planos, ora abertos e ora fechados, captam bem os momentos nos quais o protagonista sente-se sozinho ou acuado. Os enquadramentos mostram-no em espaços amplos com a companheira ao longe. Ela está se afastando afetivamente dele. As cenas de interrogatório também possuem quadros expressivos. Ele fica sozinho em um ponto de uma longa mesa, com muitas cadeiras vazias, enquanto seu inquiridor o criva de perguntas do outro lado. A sensação é de um desamparo completo. Está sozinho em suas batalhas.

Apesar de haver um julgamento em curso, o filme não se torna um drama de tribunal. O roteiro opta por não o retratar na tela. O foco são os movimentos de Hirsh com seu advogado e com a sua esposa. O psiquiatra fica cada vez mais encurralado por todos a sua volta e as doses de tensão aumentam consideravelmente no correr da história. A trilha sonora é utilizada sem reservas para estimular essa sensação de suspense. Mas as cenas de alta carga dramática funcionam melhor sem ela. A música, quase onipresente, deixa pouco espaço para o espectador construir suas próprias emoções com as agruras de Hirsh a rechear a trama. Contudo, o trabalho de mixagem consegue um bom equilíbrio entre sons de diálogo, ruídos ambientais, e deixa essa trilha musical como um burburinho de fundo na maior parte do filme.

As informações sobre sua culpa ou inocência aparecem durante o primeiro e o segundo ato por meio de diálogos expositivos. Aproximam o espectador do personagem e gera empatia por ele. O sensacionalismo jornalístico contribui para minar a carreira de Hirsh perante a opinião pública. A imprensa toma o lugar de antagonista.

As evidências esclarecem a verdade sobre algumas acusações infundadas. Mas uma cena no ato final depõe contra o protagonista e deixa uma pergunta em suspenso para o espectador responder. Se um paciente gravemente transtornado e delirante entrega uma arma ao seu psiquiatra, seu papel é retê-la ou devolvê-la de imediato? Essa cena finaliza o filme. Hirsh devolveu a arma ao rapaz.

Eduardo Barbosa ▪ 03 dez 2024


Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319