O convite (2026) não é um filme sobre um jantar desastroso entre vizinhos de um prédio. É a história de um casal que precisa tropeçar dentro da própria casa para encontrar a sepultura de seu relacionamento. O jantar não destrói o casamento. Apenas acende a luz para o casal enxergar o que restou.
Há muitos abajures espalhados pelo apartamento. A decoração é de Angela (Olivia Wilde). O marido, Joe (Seth Rogen), costuma tratar esse trabalho com desdém, como em uma cena em que eles estão se trocando para receber os vizinhos. Ele, ao centro do quadro, com a imagem dela duplicada e desfocada nos cantos, diz que poderiam pintar o quarto de uma vez. Há três pinceladas de tons claros na parede. Ele se irrita porque acha tudo igual e não entende a hesitação dela. “É tudo a mesma cor. Escolhe uma. Quem liga?” Ela está inundando a casa com elementos que precisam ser vistos, que iluminam, chamam a atenção e anunciam que estão ali. Está se colocando nas paredes, nos corredores, no teto, na mesa. Mas ele não dá a mínima.
Tudo parece muito divertido no encontro do casal com Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), os vizinhos. Angela faz um jantar para onívoros. Pina é vegana. Ela pediu por mensagem que Joe comprasse vinho antes de voltar do trabalho, mas ele não olhou o telefone. Só há um champanhe, eles discutem, ela toma quase tudo. Os pequenos desastres vão se amontoando. Até Joe resolver tocar em um assunto sensível. Ele não suporta o barulho de sexo vindo do apartamento dos vizinhos. Ela o proibiu de trazer a questão à tona durante o jantar. Ele insiste. Parece que este será o estopim de uma noite toda errada. Mas é apenas o começo de uma tempestade. A bronca de Joe acaba levando à revelação de que os dois não fazem sexo há um ano.
Não é muito difícil comprar a ideia de uma casa habitada há anos por um casal infeliz. Exceto pelo escritório, uma bagunça em que tudo parece jogado de forma aleatória, todo o restante parece contar a história de uma mulher que deseja ser percebida por um companheiro que não a vê mais. Joe não liga apenas para a decoração de Angela. Ele não liga para o relacionamento com Angela.
Há uma cena em que Angela chora iluminada por um abajur de luz branca. Pina está sentada à sua frente. Pina é quase uma luminária humana dentro daquele apartamento. Loira, de cabelo volumoso na altura dos ombros, visualmente semelhante aos abajures escolhidos por Angela. Como essas peças, sua função é iluminar. Ela entra numa casa cheia de fontes de luz e torna visível aquilo que seus moradores não enxergavam. Só que essa luz vem carregada de sexo, desejo, possibilidade de troca, recomeço. Angela espalhou luz pela casa inteira, mas não consegue enxergar o próprio casamento em frangalhos. Pina consegue.A vizinha não oferece apenas uma interpretação do problema. Ela apresenta outra organização possível da intimidade. Ela e Hawk praticam sexo grupal, trocam de parceiros e vivem uma sexualidade que desestabiliza a forma conjugal aparentemente convencional de Angela e Joe. Então aquilo que vem do apartamento de cima não é somente o barulho sexual que irrita Joe. É quase uma vida alternativa fazendo barulho sobre a cabeça deles. Embaixo, o casal paralisado; em cima, circulação de corpos, parceiros, desejo. Joe tenta inicialmente fazer esse mundo de cima calar a boca. Depois acaba obrigado a ouvi-lo.
Pina tem uma função complexa e decisiva, mas o filme escolhe construí-la recorrendo a um repertório velho: a mulher latina como criatura excessivamente sensual, espontânea, sexualmente desinibida, aquela que vem ensinar aos personagens mais reprimidos como viver o desejo. O cabelo loiro acrescenta uma perversidade visual curiosa. Ela é simultaneamente mulher, clichê sexual e figura integrada ao universo decorativo de Angela. Quase um dos abajures que finalmente começa a falar.
Eduardo Barbosa ▪ 12 ago 2026
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