Nascida para você (2023): a luta de um homem gay para ser pai solo em uma Itália conservadora

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O caso de Luca (Pierluigi Gigante), contado neste filme, é baseado em uma história real. Ele abandonou o sacerdócio por ter se apaixonado por um homem e passou a viver sua sexualidade sem se reprimir. O trabalho em uma comunidade acolhedora de pessoas com síndrome de Down vai bem. Porém, seu relacionamento amoroso vai mal. Ele deseja ser pai, o companheiro não. Isso gera conflitos e brigas entre os dois.

A contragosto do companheiro, Luca faz um registro em um Juizado de Infância e se candidata à adoção. Na Itália do filme de Fabio Mollo, não há possibilidade de casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Então, a saída é registrar-se como futuro pai solo. Há um complicador nesta condição. Famílias monoparentais são as últimas da fila de espera na adoção. O cenário jurídico do país, representado no longa-metragem, é de baixa receptividade às demandas da população LGBT+ e privilegia o modelo familiar tradicional. O poder de decidir se um homem gay pode ou não adotar uma criança é de competência exclusiva dos juízes, não do Estado.

Quando uma mãe abandona uma bebê com Down na maternidade, Luca vê aí sua oportunidade de ser pai. Consegue uma entrevista, no entanto, a juíza responsável pelo processo de adoção quer uma família heterossexual para a bebê e não um homem como ele. Ela fará contato com outras famílias com configurações mais apropriadas para receber uma criança recém-nascida.

Luca permanece em estado de expectativa, mesmo com a negativa homofóbica da juíza. As enfermeiras registram a bebê como Alba. Os meses passam. Mais de trinta famílias a recusam. Nenhum dos interessados em adoção quer uma filha com as características daquela criança. Chega o momento no qual os funcionários da maternidade entrarão em férias. Alba precisa dos cuidados de alguém de fora do ambiente hospitalar. Só resta Luca na lista de adotantes para acolhê-la.

A juíza lhe concede uma adoção temporária. Ele será pai por um mês. Depois precisará “devolver” Alba à maternidade para encontrar uma “família de verdade”. Como se o afeto de um homem gay não fosse suficiente para formar uma família.

O longa-metragem não pinta a paternidade com tintas romantizadas. Luca aprende os ofícios do papel entre inseguranças, temores, desorientação, e choros infantis incontroláveis. Mas recebe auxílio no manejo da filha. A paternidade surge aos poucos, fazendo cacos da vida antiga e obrigando o nascimento de um novo homem.

A chegada de Alba provoca uma avalanche de transformações no cotidiano de Luca. O companheiro se afasta definitivamente. Ele se muda para outra casa e a nova rotina o impede de ir ao trabalho. Já sua relação conturbada com a mãe homofóbica cede espaço para um convívio afetuoso. A paternidade suficientemente boa só brota quando o rapaz permite sua família compartilhar de seu afeto por Alba. O vínculo entre pai e filha provoca uma reconexão do próprio Luca com seus genitores.

A trilha musical é um elemento narrativo crucial para a construção das camadas emocionais dos personagens. As canções começam extradiegéticas na maior parte do filme, sem origem exibida na tela, e terminam diegéticas com algum personagem a cantá-las ou exibe-se uma fonte sonora a emiti-las. Em uma visita do pai, o protagonista descobre uma técnica para manejar um choro incontrolável. Quando tinha a idade de Alba, as afetuosas canções paternas era o seu único acalanto. Diante de um episódio de choro interminável e sem uma causa facilmente identificável da filha, Luca recorre à técnica do pai. Cantarola enquanto embala Alba em seus braços. A intensidade do choro diminui.
Ela ouve sua voz. Pouco depois adormece.

Impossível ficar imune às emoções despertadas pela forma com a qual Fabio Mollo conta essa história. Pierluigi Gigante faz um trabalho de interpretação de Luca sem arestas. Impossível não se convencer de seu afeto por Alba e do seu nascimento enquanto pai. Sua luta e suas angústias são críveis na tela. A cena na qual o personagem devolve a filha à maternidade é capaz de tocar profundamente o espectador. Sensibilidade a flor da pele é a tônica desse filme transbordante de afetos.

Eduardo Barbosa ▪ 04 dez 2024

Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319