____________________________________________________
O grego Christos Nikou é um contador de histórias peculiares. O trabalho do diretor no cinema de ficção assume um caráter singular desde seu curta-metragem KM (2012). Neste drama de pouco mais de dez minutos Nikou embrulha a história de um casal em crise em refinadas camadas de metáforas que inundam o espectador com múltiplas possibilidades de interpretação. Em Apples (2020), seu primeiro longa-metragem de ficção, Nikou narra um processo de luto com criatividade em alto nível. Após um surto coletivo de amnésia, um homem se vê perdido e refugiado no apagamento de seu próprio passado. Tudo que lhe restou foi o gosto por sua fruta preferida, maçãs. O homem entra em um programa de recuperação cheio de tarefas estranhas. Até que as maçãs e o programa trazem seu luto de volta. É um filme lento. Sem sobressaltos. E muito peculiar.
A história de Fingernails (2023) não foge desse padrão do cineasta. Neste longa-metragem ele continua explorando um objeto comum aos dois trabalhos anteriores, as relações amorosas. Em KM (2012) é um relacionamento em crise. Em Apples (2020) é a perda de uma parceria amorosa. E Fingernails é a busca pelo par perfeito. A ambientação é em uma época anterior aos tempos de vida mediada por tecnologias digitais individuais, como os smartphones. Esta é outra característica de suas obras. Se na época dos aplicativos de encontros amorosos o amor está na ponta dos dedos, no mundo de amores tecnologicamente mediados de Nikou o amor está em um arrancar de unhas. Não existe um Match em uma tela particular. Para obtê-lo é preciso que o casal de futuros companheiros arranque uma de suas unhas das mãos e as submeta a um exame laboratorial. O teste realizado por uma máquina diz em minutos se existe compatibilidade amorosa ou não. Assim como em Apples (2020), no filme de 2023 também há um programa que ajuda os candidatos na criação de vínculos afetivos. Quanto mais radical as atividades mais chance do teste dar positivo. O amor de Fingernails é biossocial, unhas e convívio.
A abordagem, embora seja singular e torne o filme interessante, acaba derrapando em um clichê do gênero romântico quando se encaminha para o final. O ponto de virada que explica as mentiras de um dos personagens centrais é utilizada exaustivamente em comédias românticas. O recurso, para quem conhece os trabalhos anteriores de Christos Nikou, diminui parte do encantamento com suas abordagens excêntricas de temas explorados abundantemente, e sempre com a mesma fórmula, na história do cinema.
Mesmo derrapando no ato final e caindo nos clichês românticos, como o batido "com quem a mocinha ficará?", o filme não deixa de ser provocativo. As últimas cenas dizem que a ciência até pode produzir conhecimento sobre o amor e informar tudo sobre a parceria certa para cada pessoa. Mas conhecimento, nesse caso, não produz felicidade. A protagonista é feliz nas incertezas. É a hipótese de amor que empolga, não a sua confirmação.
Eduardo Barbosa ▪ 17 dez 2023
