Na peça de Sófocles, o filho de Laos consegue uma vida material exitosa após operar com as próprias mãos a morte do pai. A figura do pai é o coração dessa tragédia grega. Sigmund Freud também bebeu da fonte do mito edipiano para produzir o conceito psicanalítico de complexo de Édipo para explicar os mecanismos psíquicos estruturantes do sujeito humano. Freud construiu um pilar sólido de análise a partir de Édipo. A relação edipiana escorre vistosa pelos vãos da trama de Carvão.
A proposta que muda a vida da família se ergue sobre o sacrifício do homem mais velho da casa, o pai de Irene. Enquanto ele vegeta doente em uma cama de beliche, Irene administra a carvoaria e a miséria da casa e o marido dorme aqui e ali. O título do filme faz alusão àquilo que garante a sobrevivência dos quatro, mas é também um símbolo de destino de um homem que já não contribui mais para a manutenção do orçamento familiar. No ato de virar carvão o pai se transmuta em dinheiro. O forno da carvoaria, antes gerador de parcos recursos financeiros, torna-se o alívio da casa enquanto expele a fumaça do pai pelas chaminés. A prosperidade chega à galope. O marido compra motocicleta. O filho ganha celular.
Irene não se pune com a cegueira, como acontece com Édipo no mito grego. Mas precisa, simbolicamente, cegar os vizinhos para que não conheçam o destino do pai. Desconfiar e ser objeto de desconfiança é seu castigo.
O trabalho de interpretação de Maeve Jinkings é a joia do filme, fazendo vívidas as tensões e aflições da personagem. Não menos primorosa é a interpretação do ator mirim que dá vida ao seu filho, um personagem de falas incisivas e certeiras. O filme não se preocupa em dar cabo das questões paralelas surgidas no tecer da história central, ficam em aberto, mas a morte do pai exige outra vida em troca para fechar o roteiro. E ela acontece.
Carvão é um filme para o espectador refletir sobre os alicerces da família tradicional que se erige sobre segredos e mentiras.
Eduardo Barbosa ▪ 17 set 2023