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Mia (Greta Gasbarri) é uma garota de quinze anos cheia de vida. Adora maquiagens de cores marcantes. Faz dancinhas para redes sociais e envolve o pai nas gravações. Encontra-se frequentemente com sua melhor amiga. Joga vôlei. Tem um bom relacionamento com a mãe. Sua vida corre com ventos de uma normalidade típica de garotas dessa idade. Então ela conhece Marco (Riccardo Mandolini), um jovem motoqueiro de ares agressivos. Não demora e eles iniciam um relacionamento. Nessa relação entre uma garota apaixonada e um rapaz violento está o movimento da trama.
A maquiagem e o figurino do filme tornam-se essenciais para marcar pontos visíveis de perda de autonomia de Mia em relação ao próprio corpo. Marco não gosta de vê-la com batom. Logo, a cor púrpura de seus lábios desaparece. Os lábios se descolorem, como quer o namorado. A base sobre a pele é abandonada. Os olhos perdem o preto do delineador. Os cílios não têm mais rímel. Toda essa submissão disfarçada de doação afetiva não é suficiente. O namorado também não gosta de roupas curtas e apertadas. Tops, minissaias e jeans justos vão parar no fundo do armário. Moletons folgados o agradam mais. Há um apagamento completo em desenvolvimento.
O processo de controle masculino não se restringe apenas ao corpo da namorada. Marco deseja-a como uma propriedade particular, servil, domada e subserviente aos seus mandos e desmandos. Desagrada-lhe os encontros entre ela e sua amiga. E o vôlei praticado por toma-lhe um tempo gerido e exclusivo dele. Ele lhe liga e envia mensagens o tempo todo para saber onde e com quem está. Seria melhor ficar em casa, disponível para suas demandas. Do alto de sua paixão, ela cede. Fica sob domínio absoluto do dono. Quando o pai e a questiona sobre essa toxicidade da relação entre eles, a filha reage mal. O pai insiste na proteção. Discute com Marco na porta de casa e o agride. Mia vê o ocorrido, se revolta e foge de casa para viver com o namorado.
O ponto de virada principal no roteiro é quando a garota passa por uma violência sexual praticada pelo rapaz e os sinais de sua descartabilidade nessa relação ficam evidentes. Em frangalhos, ela procura o pai. Ele a recebe com carinho. Estimula a retomada de antigas amizades e o retorno às atividades habituais. Ela refloresce. Retoma seu estilo antigo e a alegria de sua idade.
O pai, protetor e cuidadoso, transforma-se em um homem a não conseguir visitar a filha em um hospital. Se humilha para o antagonista, tentando fazê-lo apagar os vídeos. Antes ele o agredia para protegê-la. Rouba uma arma para fazer sua própria justiça. Mas falta-lhe coragem para dar cabo de sua vingança. O roteiro o esvazia até deixá-lo de joelhos em meio aos vidros quebrados em um rompante de desespero. Essa é toda sua capacidade de reação.
O filme parece perdido ao correr para o fim do segundo ato, sem saber lidar com os personagens. Tudo é resolvido com um pai vacilante e uma protagonista sofrendo até a exaustão. O pior são as últimas cenas. Quem é penalizado é o pai. Não há qualquer cena de julgamento do agressor.
A última exibição de Marco na tela o mostra amedrontado e fugindo da mira de um revólver. Seu pai o protege, vendo no agressor somente uma criança. Como se a destruição de Mia não passasse de uma brincadeira. Não há réplica. O roteiro finaliza a história com essa mensagem. Parece ter sido escrito por dois roteiristas com ideias radicalmente opostas. E se coloca contra todo o discurso feito até ali. Não nos poupa com a violência gráfica contra a protagonista e poupa o agressor até mesmo de viver as consequências jurídicas de seus crimes. Bizarro.
