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Caterino Lamanna (Michele Riondino) trabalha como operário em uma siderúrgica italiana. Faz manutenção e reparos de fornos. Não é uma atividade leve. Mora em uma casa simples e aspira a uma promoção. A oportunidade chega junto com um incidente trágico no local de trabalho. O espaço fabril transforma-se em um ringue de luta entre os patrões, o sindicato e os operários.
A primeira cena do longa-metragem exibe o funeral de um trabalhador. Trinta e duas horas trabalhadas em dois dias resultaram em exaustão e morte. O corpo é velado em uma capela. A sequência de tomadas alterna planos detalhes do caixão, com um capacete sobre a tampa, closes das expressões faciais dos colegas do morto e recortes das figuras gravadas nas paredes. Há imagens de Cristo e desenhos de trabalhadores espalhados pelo local. Esse diálogo entre cristianismo e trabalho ganha contornos mais nítidos no terceiro ato, sem perder seu caráter metafórico. Aos poucos desenha-se um conflito para o incidente incitante, uma disputa entre patrões e empregados.
A siderúrgica pune os subordinados considerados problemáticos realocando-os em cargos para os quais não tem nenhuma preparação. Um engenheiro de dados é obrigado a trabalhar como operário. A responsável pelos processos de recursos humanos é realocada em um cargo sem qualquer relação com sua função para a qual foi contratada. Os resistentes à mudança de área são enviados ao claustrofóbico Palazzina Laf. É um prédio vazio sem trabalho para ser feito e com guardas armados proibindo qualquer saída durante o expediente. As atividades recreativas são proibidas e os empregados punidos burlam a norma para angariar algumas migalhas de sanidade mental.
A luta contra esse sistema de confinamento laboral é central na trama. Mas o objetivo principal do roteiro é explorar a capacidade de um trabalhador de agir contra os seus próprios direitos, motivado por promessas ilusórias de ascensão profissional individual. Quando sindicalistas e grevistas se unem para pressionar a fábrica por melhores condições laborais, Caterino, o protagonista, mantêm-se longe das mobilizações.
Um dos gerentes da siderúrgica ao conhecer a posição de Caterino em relação ao sindicato e à greve em andamento, arregimenta-o como um espião. Ele ganhará uma promoção se delatar os movimentos dos colegas junto ao sindicato. Qualquer ação contra as condições vigentes no ambiente fabril deve ser reportada. A tarefa é aceita. O operário é promovido a encarregado de setor. A nova posição lhe dá satisfação. Ele ganha um aumento de salário, um automóvel, e se prepara para mudar com a namorada para uma casa maior e mais confortável. Tempos depois é transferido como espião para a Palazzina Laf. Uma vez dentro do círculo de punidos revoltosos, passa a delatar todas as movimentações dos colegas.
Símbolos religiosos, opressão e trabalho, se misturam no filme de Michele Riondino. Caterino sonha com uma procissão. Nas cenas oníricas, ele aparece como uma estátua ao lado da imagem de Cristo, beijando-lhe a face. Ou seja, em seu íntimo é um traidor de sua classe. Um homem a ignorar seus colegas torturados ou obrigados ao trabalho exaustivo até a morte. O mais importante é o quanto de dinheiro as traições lhe renderão. Ao fim do longa-metragem inicia-se um processo jurídico movido pelo Ministério do Trabalho contra a empresa. Caterino é interrogado.
Depõe contra si mesmo e trata o julgamento dos patrões como chacota. Ele não se sente como um operário. Não enxerga sua ajuda manutenção da própria exploração. Considera-se um amigo dos seus chefes e não uma descartável ferramenta utilizada pelos patrões para manter o violento processo de exploração de mais-valia na fábrica.
Caterino não hesita em fazer dinheiro com o sangue de seus colegas a banhar o chão fabril. Só deseja uma vida melhor. E para isso os fins justificam os meios. O operário não percebe a ilusão das promessas de mobilidade de classe nas quais se apega. Ele é só uma peça temporária, utilizada ocasionalmente para fazer as engrenagens da exploração girar. Mas em sua cabeça se jogar com os chefes será um deles. Falta-lhe consciência de classe para agir em benefício do coletivo para atingir benesses reais para si mesmo. Caterino é um Judas do proletariado a dividir o pão amassado pelo diabo entre os seus. Prova do cálice de sofrimento, mas não sente o gosto amargo dos goles repartidos. As trinta moedas não lhe credenciarão para sua tão sonhada mobilidade social.
Eduardo Barbosa ▪ 02 dez 2024
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