Éramos crianças (2024): políticos criminosos, crianças traumatizadas, violência e vingança, recheiam a trama

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Um grupo de antigos amigos recebe uma mensagem com um ultimato. Chegou a hora da vingança. Este é o incidente incitante a movimentar o segundo ato de Éramos crianças. É o núcleo da trama. O chamado à aventura para um acerto de contas.

O remetente da mensagem é Gianluca (Alessio Lapice), um policial desajustado e violento. Os receptores são: Walter (Lorenzo Richelmy), um cantor de rock famoso, Margherita (Lucrezia Guidone), uma jornalista, e Antonio (Francesco Russo), um carteiro. Suas famílias eram próximas durante a infância e as crianças estavam sempre juntas. Até um evento traumático pôr fim às amizades. Dois ex-integrantes do grupo não são contactados por Gianluca, Peppino (Giancarlo Commare) e Andrea (Romano Reggiane), irmão de Margherita e dependente químico. Um é filho de um Senador e o outro era muito pequeno na época do ocorrido. Ao reencontrá-los, Gianluca tenta convencer os três amigos de infância a cooperar com seu plano. Mas eles se mostram reticentes. O convencimento só ocorre no terceiro ato, quando outros incidentes surgem na história.

Não há linearidade no longa-metragem. A cena de abertura mostra Antonio armado com arma branca na porta da casa de um Senador. A polícia o aborda e o leva para uma delegacia e o interroga. Enquanto isso, cenas da infância dos personagens centrais tomam a tela. Os enquadramentos desse passado alegre e divertido são repletos de planos gerais retratando paisagens e corpos. Enquanto a vida adulta se enche de primeiros planos e planos médios abastecendo a tela com rostos e corpos filmados às metades. É como se o trauma transformasse a completude dessas crianças e adolescentes e no lugar restou adultos aos pedaços.

O interrogatório corre do primeiro ao terceiro ato. E o roteiro tenta se equilibrar com a composição de três tempos. Antonio está na delegacia em uma cena. Em outra é uma criança a brincar com os amigos. E discute os planos de Gianluca em outro momento. O espectador demora algum tempo a se acostumar com esse vai-e-vem. É confuso. A não-linearidade prejudica a narrativa.

O evento traumático só se revela no final do segundo ato. Ele se conecta diretamente com o Senador. Houve um assassinato e as crianças foram testemunhas oculares. Mas é difícil comprar a ideia de um mafioso a liquidar todos os pais, sem misericórdia alguma, e poupar as crianças assistindo ao massacre de uma janela. O filme não explica e isto se torna uma lacuna no roteiro, comprometendo o desenho do vilão.

O confronto final retorna à cena de abertura. O caminho fica livre para a vingança. Mas os amigos ficam encurralados na cena do crime. Não há retorno para suas vidas anteriores e o filme termina com um final em aberto no qual o espectador não sabe se eles foram salvos ou não. Os cem minutos de história cansam, elucidam algumas dúvidas centrais levantadas na trama e abandona as mais secundárias.

Eduardo Barbosa ▪ 27 nov 2024


Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319