Delírios shakespearianos: a arte contra a crítica em Theatre of Blood (1973)

______________________________________________

Imagine um ator experiente, furioso com uma associação de críticos. Na disputa entre ele e um novato pelo prêmio da temporada, coroaram o outro. O veterano não aceita a escolha. Arquiteta uma vingança cirúrgica. Usa sua capacidade de interpretar personagens para atrair os alvos e liquidar, um a um, cada membro do comitê. Esta é a premissa de Theatre of Blood (1973), longa-metragem dirigido por Douglas Hickox sobre o revide de um velho ator que finge a própria morte para dar cabo de seus detratores. Por trás do sangue, porém, a trama formula uma questão menos grotesca. O que acontece quando a crítica deixa de ser apenas uma opinião e passa a funcionar como instância de legitimação da arte?

O filme começa com uma reunião do Círculo de Críticos de Teatro de Londres. Um dos assentos permanece vazio. Logo se descobre que não se trata de um mero atraso. Ele foi vítima de um assassinato ritualesco. O responsável não tarda a ser revelado. É Lionheart (Vincent Price), o ator que competiu pelo prêmio e perdeu para o estreante. Cada execução é inspirada em uma peça de William Shakespeare. A vingança, portanto, não consiste apenas em eliminar os críticos. Lionheart transforma a própria linguagem teatral no instrumento de sua revanche. Mata aqueles que julgaram sua arte por meio da arte que se dedicou a representar.

É nesse ponto que a violência do filme começa a adquirir outro sentido. Um dos críticos, enquanto é torturado, tenta justificar suas avaliações dizendo que suas observações pretendiam apenas “melhorar” o trabalho do ator. A afirmação resume uma determinada concepção da crítica de que seu papel não é apenas interpretar a obra, mas avaliá-la e estabelecer os parâmetros pelos quais ela deve ser reconhecida. Theatre of Blood exagera essa autoridade até transformá-la em sentença de morte.

O último confronto torna essa relação ainda mais evidente. Diante de seu alvo final, Lionheart exige que o crítico recue. Quer ouvir que ele foi o melhor ator da temporada passada. O homem se recusa e prefere morrer a mudar sua palavra. O crítico assume, assim, a posição de um magistrado cuja sentença, uma vez pronunciada, parece não poder ser revogada. Mas o que torna a cena particularmente irônica é que Lionheart também reconhece esse poder. Ele não está simplesmente tentando destruir aqueles homens. Está tentando obter deles, até o último instante, aquilo que sempre desejou: o reconhecimento de que sua arte possui o valor que acredita possuir.

Por isso, a caça aos críticos revela mais sobre Lionheart do que sobre suas vítimas. O aplauso das multidões pouco lhe importa. Seu desejo está na estatueta dourada, no reconhecimento institucional, no símbolo material de que seu talento foi oficialmente legitimado. O ator que pretende destruir o sistema de avaliação artística continua preso à lógica desse mesmo sistema. Seu ressentimento nasce não da indiferença ao julgamento, mas de sua absoluta dependência dele.

A ironia atinge o ápice na apresentação final, quando Lionheart encarna simultaneamente o ator ferido e um dos personagens de Shakespeare. O crítico, diante daquela performance tresloucada, finalmente reconhece nela a melhor interpretação de sua carreira. Para eliminar o pensamento crítico, Lionheart oferece ao próprio crítico exatamente aquilo que ele procura: uma atuação que possa ser julgada como exemplar. O ator só consegue se afirmar porque ainda existe alguém autorizado a dizer que ele é um grande ator.

É aí que Theatre of Blood deixa de ser apenas uma vingança contra críticos arrogantes. O filme constrói uma relação de dependência mútua entre aqueles que fazem a arte e aqueles que a avaliam. Lionheart necessita do Círculo de Críticos tanto quanto o Círculo necessita de atores, diretores e dramaturgos. Sem artistas, não haveria o que julgar. Sem o julgamento, porém, Lionheart acredita que falta à sua obra a confirmação de seu valor.

A pergunta que permanece, então, não é simplesmente se a crítica deve ou não ser levada a sério. É outra: quanto do valor atribuído a uma obra pertence à própria obra e quanto depende das instituições que a consagram? Theatre of Blood responde a essa pergunta com o método mais teatral possível. Para libertar a arte da crítica, Lionheart precisa continuar acreditando na autoridade da crítica. E, no fim, o bom ator não nasce da morte dos críticos. Nasce da necessidade de ser reconhecido por eles. 

Eduardo Barbosa ▪ 12 ago 2026
Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319