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Caracas (2024) é uma história a desvendar o processo criativo de um escritor de romances. O filme destrincha uma das principais ferramentas de uma mente romancista por trás de livros populares, os devaneios. O protagonista é Giordano Fonte (Toni Servillo), um escritor popular em retorno à sua cidade natal após longo tempo longe.
Fonte expressa irritação com as perguntas da plateia e com a própria profissão em uma palestra para leitores. Não pretende continuar escrevendo. Ao sair do local e ter a bolsa roubada, se depara com Caracas (Marco D’Amore), uma enigmática figura do submundo urbano a impeli-lo na direção contrária de suas declarações.
Não há temporalidade linear na narrativa. O espectador é bombardeado com fins e começos o tempo todo. Caracas surge no início do primeiro ato. É um skinhead nazifascista a participar de atos violentos pelas ruas até encontrar e se deslumbrar por uma comunidade e uma moça de fé muçulmana. Transita ao longo do filme por esses dois grupos.
Ao sair ao encalço da bolsa roubada, Fontes encontra uma casa na qual a ladra adentrou. É a morada de Caracas. A atração por essa figura criminosa é instantânea. Surge um impulso a retratá-lo em um romance e Fontes o faz. No entanto, a escrita não é feita de modo consciente. O editor, maravilhado com as primeiras páginas do manuscrito, indaga-lhe, diante de um provável sucesso de vendas, se a inspiração para aquele personagem é um homem real, pois é muito crível.
A partir desse instante, aparece um protagonista às voltas com seus devaneios. O filme perde parte do encanto de deixar o espectador às escuras e tentar construir suas próprias explicações para o emaranhado de acontecimentos envolvendo Fonte e Caracas. Compensa, porém, com um mergulho profundo na mente de um escritor de ficção.
Ao abrir a porta de seu quarto de hotel, o escritor se transporta de imediato para o submundo napolitano. A fotografia banha essa Nápoles fantasiosa com tonalidades amareladas intensas. A paleta de cores e o aspecto chuvoso e úmido dos cenários imprimem a sensação de uma cidade um tanto apodrecida.
Há um texto de Sigmund Freud, chamado O escritor e a fantasia (1908), cuja teoria aplica-se perfeitamente ao personagem do longa-metragem de Marco D’Amore. Para o psicanalista austríaco, o ato de escrever um romance popular de sucesso mobiliza a vivência de fantasias e devaneios. É como se fossem as brincadeiras do universo infantil, mas em novos formatos.
O roteiro joga com a realidade e a fantasia do protagonista, misturando-as e separando-as, para facilitar a compreensão da história para o espectador. Em um mundo há frustrações, tristezas por afetos perdidos, perda de sentido com os rumos tomados pela vida e uma cidade sem graça. No outro universo há agitações, companhias alegres, crimes, casos de amor, ambientes urbanos festivos e violentos e de coloração incendiada. O interessante é como o livro surge. O escritor trabalha em pleno devaneio e não se recorda dos próprios escritos quando não está vivendo a fantasia.
Quando o devaneio se encontra inoperante, Fonte se dirige a casa de Caracas. Encontra seus próprios pertences guardados por novos moradores. Nenhum vestígio do personagem enigmático de seu novo romance. A casa, onde viveu por anos antes de deixar a cidade, é uma das muitas cenas do filme a dialogar com a teoria Freudiana da criação literária. O romancista brinca consigo enquanto se desdobra em outros através de sua máquina de escrever. Pode inclusive retomar a história de Caracas e dar-lhe destinos ao bel-prazer de suas fantasias.
