A alma em paz (2023): filme usa a pandemia de Covid-19 como cenário para tratar da repetição dos padrões de violência entre as mulheres de uma família de classe baixa italiana

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Roma está em quarentena. Os habitantes da cidade estão confinados em suas casas para evitar a propagação da covid-19. Esta é a ambientação do filme de Ciro Formisano. Apenas as atividades essenciais seguem seu curso. Dora (Livia Antonelli) trabalha em uma dessas atividades. Dirige um caminhão por ruas esvaziadas e entrega compras em residências. Vez ou outra também ajuda o namorado traficante com a venda de mercadorias ilícitas.

Ela divide uma casa pequena com a mãe e uma tia. A mãe deixou uma prisão recentemente e perdeu a guarda dos filhos gêmeos ao resolver seu caso de violência doméstica atirando em seu marido, o agressor. As duas veem as crianças da rua. Interagem com eles de longe pela janela da casa na qual estão confinados. Seu maior desejo é voltar a viver com os irmãos.

Dora parece seguir os passos da mãe. Yuri (Antonio Digirolamo), o namorado, é um homem violento e agressivo. Quando decide interromper sua jornada como assistente de traficante ele a impede. Mas ela ganha um estímulo ao conhecer Andrea (Lorenzo Adorni) em uma de suas entregas. O rapaz, um paramédico, é o contrário de Yuri, sensível e compreensível. Se apaixonam.

Enquanto lida com os conflitos com a mãe e aguarda um julgamento a decidir se elas retomarão a guarda das crianças, Dora se envolve mais com Andrea. No entanto, a mãe do novo namorado torna-se um obstáculo à relação. A diferença de classe entre os dois, na visão da sogra, é um impeditivo para o relacionamento. As chances de florescimento do namoro tornam-se baixas. E Yuri, após tempos em privação de liberdade, sai da prisão e convoca-a para conseguir dinheiro. Ela resolve ajudá-lo. Como sempre faz. Decidem assaltar a casa da mãe de Andrea.

A ênfase do roteiro está na permanência de diferentes gerações de mulheres no mesmo ciclo de submissão à homens violentos. Yuri, de quem Dora não consegue se livrar, não é muito diferente de seu pai, um homem a vendê-la aos amigos por alguns trocados quando ela era menina. Ela tem a oportunidade de escolher se seguirá os passos da mãe ou romper o ciclo e se libertar.

A direção de arte acerta na construção dos cenários. A protagonista está sempre rodeada de pacotes de água, carrinhos de carga, caminhões de transporte de mercadorias e sacolas de supermercado. Os enquadramentos da cidade em planos abertos completam o visual com a atmosfera inquietante de uma metrópole sem transeuntes, com habitantes mantidos vivos graças às atividades de trabalhadores como Dora. A câmera segue-a como em um documentário. O filme ganha ares intimistas.

Algumas cenas no ambiente familiar, de alta voltagem dramática, tornam-se problemáticas. Livia Antonelli não consegue atingir o tom necessário para convencer o espectador em algumas cenas. Contudo, o arco da personagem é bem desenvolvido. As decisões tomadas ao longo dos acontecimentos evidenciam sua transformação. Enquanto Roma reabre suas ruas para o borbulhar da vida pública, Dora decide qual rota sua vida tomará. Seguirá com Yuri ou ficará com Andrea?

Eduardo Barbosa ▪ 03 dez 2024



Revista Filmíssima • ISSN 2966-0319